Considerações sobre “Arrival” (2016)

ATENÇÃO! ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS. MARQUEI OS LUGARES EM QUE ESTÃO OS SPOILERS PARA QUE VOCÊ PULE, SE QUISER.



Em primeiro lugar: esqueçam quase tudo que vocês viram em filmes sobre alienígenas. Aliás, você pode até esquecer que esse filme é sobre alienígenas, porque ele fala muito mais sobre o que somos como humanos do que sobre os alienígenas.

O filme começa com uma série de imagens mostradas como se fossem lembranças da doutora Louisa Banks, especialista em linguística. As memórias mostram a vida que Louisa teve com sua filha, que aparentemente morreu de alguma espécie de câncer incurável. São poucas imagens, não demora muito, e logo começamos a história propriamente dita.

Louisa vai trabalhar em um dia aparentemente normal quando é surpreendida pela presença de apenas seis (mais ou menos, não contei) alunos, que pedem para que ela ligue a TV. É quando ela descobre que uma série de objetos em forma de concha pousaram na terra. Isso não parece perturbá-la e ela tenta continuar com sua vida, focada em seu trabalho, sem se importar muito com o que está acontecendo, já que isso não tem um grande impacto da sua vida.


ATENÇÃO! A PARTIR DESTE PONTO EU COMEÇO A CONTAR A HISTÓRIA DO FILME. ALGUNS SPOILERS ESTÃO NO TEXTO, MAS NADA QUE O FAÇA PERDER A EXPERIÊNCIA DE ASSISTIR E DESCOBRIR, JÁ QUE O MAIS IMPORTANTE SÓ VEM DEPOIS.

Até que o exército a contacta para que ela possa tentar algum contato linguístico com os “sujeitos” que estavam na nave. Louisa reluta, mas acaba indo. Quando chega lá se depara com um cenário que vai lhe lembrar as aproximações do exército em filmes de alienígenas, mas a intenção é diferente. O governo dos Estados Unidos, pelo menos, quer manter alguma espécie de contato que faça sentido. A primeira vez que Louisa vê os sujeitos, os aliens, ela tenta ouvi-los, mas eles parecem se comunicar através de uma série de sons que não fazem sentido e lembram muito a comunicação das baleias. Sem sucesso, Louisa tenta uma comunicação visual, utilizando as letras do nosso alfabeto escrevendo a palavra “Humano” em um quadro branco. Neste momento algo muda na comunicação entre eles.



SPOILERS!

Os “aliens”, separados dos humanos em uma sala dentro da concha por uma parede que parece ser de vidro, expelem uma espécie de tinta (como as dos polvos) que se molda em símbolos circulares, com partes mais grossas e mais finas. Tendo apenas isso, Louisa se convence que talvez esse seja alguma espécie de alfabeto utilizado por eles e começa a trabalhar na compreensão dos círculos para depois traduzi-los.



Quase um mês se passa e com a ajuda de profissionais de outras partes do mundo, Louisa descobre padrões que podem ser identificados como palavras, possibilitando, pelo menos, um entendimento mínimo do que eles escrevem. Mas também descobrem que aquilo que eles escrevem parece não ter relação com o que eles falam. Ou seja: a escrita, para eles, não é uma maneira de representar graficamente a fala como foi para nós, humanos, por muito tempo (não vou me deter nas diferenças entre oralidade e escrita pois o intuito do texto não é esse). Além disso, eles usam uma ortografia não linear, que não respeita a ordem sintática (sujeito-verbo-complementos) nem a ordem espacial (como nós, falantes de português, escrevemos em linha, da esquerda para a direita).

Louisa consegue desenvolver um programa que associa palavras das nossas línguas com os padrões circulares deles, podendo, assim, facilitar a comunicação. Pressionada pelo exército a obter respostas do motivo dos aliens virem até a terra, Louisa os pergunta por que eles estão aqui. E recebe como resposta “Oferecer arma”. Isso cria um caos generalizado e algumas nações, como a China, resolvem atacar as conchas. Mas Louisa acredita que eles podem ter confundido a palavra “arma” com “ferramenta” e insiste em continuar a tentativa de comunicação. Depois do primeiro ataque, todas as conchas se afastam do chão, impossibilitando que os humanos consigam entrar. Mas Louisa se aproxima e a nave-concha envia uma espécie de cápsula que a leva até a “sala” onde os aliens estão, atrás da parede de vidro que sempre os separou. Nesse momento, a doutora e os aliens conseguem estabelecer uma conversa mais significativa. E é quando ela descobre que os aliens estão ali não para destruir a humanidade, mas para impedir a humanidade de se destruir sozinha. Eles querem fazer isso unindo as nações do mundo, pois dali a 3000 anos, esses mesmos aliens vão precisar da ajuda da humanidade para sobreviver. MIND BLOWING.



ULTRA-MASTER-BLASTER SPOILER AQUI.

Isso mesmo. De alguma forma os aliens experimentam o tempo de uma forma completamente diferente da nossa, não-linear, o que os permite enxergar ao mesmo tempo o passado, o presente e o futuro e isso está associado à sua própria maneira de entender a linguagem, que os cientistas conseguiram perceber que não era linear. Quando Louisa tem acesso a essa linguagem que, no futuro, ela chamará de “linguagem universal”, ela também consegue enxergar o futuro e o presente ao mesmo tempo. E é no futuro que ela encontra a solução para impedir que as nações ataquem as naves dos aliens.

FIM DOS SPOILERS!

No fim, o filme não trata exatamente da existência de vida fora da terra, de uma guerra intergaláctica. Ele fala de nós mesmos, da nossa percepção limitada da realidade e de como conceitos como tempo e espaço são tão relativos como comunicação, língua, alfabeto. O filme trata de uma evolução da nossa percepção humana do mundo e de todos esses conceitos físicos milenares.

Louisa é a chave para isso porque só ela se abriu o suficiente para ouvir e ver. Aliás, esses mesmos conceitos também são relativizados pelo filme. Como eu falei, é um filme que trata da necessidade da humanidade evoluir, se tornar algo maior, melhor e que possa enxergar os conceitos tão preciosos que forjamos para poder entender, organizar e burocratizar a realidade como limitados pela nossa própria consciência burocrática, cheia de gavetas onde colocamos as coisas sem relativizá-las. Se não entendemos, não existe. Se existe, entendemos pouco e isso nos parece o suficiente.

Falando de aspectos técnicos, o filme é bem produzido, apostando em uma paleta de cores mais sóbria para condizer com a falta de ação do filme. Apesar disso, ele não é chato. Pelo contrário, a narrativa é bastante dinâmica e empolgante.

Nunca considerei Amy Adams como uma grande atriz, mas ela me surpreendeu nesse filme pela diversidade da sua personagem, bastante cíclica, mudando e se entendo de formas diferentes em vários pontos da narrativa. Tanto, que os outros personagens mal têm destaque na trama, são completamente secundários, quase figurantes.

A respeito do Oscar, acredito que o filme tenha sim qualidade para ter concorrido como melhor filme do ano, mas sabemos que a academia é controlada por mentes que pensam de forma mercadológica e, nesse momento, a demanda era outra. Isso foi bom, muito bom, apesar de não ter me parecido sincero. Moonlight mereceu ganhar, mas Arrival também merecia estar ali. Ainda não vi La La Land, mas ele não me parece um filme atraente o suficiente para ter tido tanto destaque. Enfim, isso aí fica para outra conversa.

P.S.: deixei muita coisa de fora desse texto, vocês ainda terão muitas surpresas assistindo ao filme.

Comentários

Anônimo disse…
Confesso que depois de ler a sinopse, assistir o trailer e ver imagens, eu imaginei que viria aquela mesma produção, com o mesmo desenrolar, que sempre vemos nos filmes com alienígena. Ou seja, um filme em que temos os malvados alienígenas e os salvadores da terra (os Estados Unidos). Mas o filme não é sobre isso, ainda bem, né?

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